Diplomacia Empoeirada 🧨 Príncipe Harry em Angola: gesto simbólico ou herança em reconstrução?

 



Dibatadié TV – Reportagem Especial

Vinte e oito anos depois da icónica visita de Diana a Huambo, o seu filho Harry volta a pisar solo angolano com uma missão que toca na ferida antiga: as minas terrestres. Mas será que esta visita tem o mesmo impacto de antes? Ou estamos diante de uma cerimónia diplomática bem encenada, longe da realidade no terreno?

O duque de Sussex, herdeiro de uma narrativa que se mistura entre filantropia e relações públicas, foi recebido pelo Presidente João Lourenço numa audiência marcada por sorrisos, câmaras e contratos. No centro da conversa: o apoio à desminagem, um problema que continua a mutilar vidas no país, muito depois da guerra ter calado as armas.

Segundo a organização internacional HALO Trust, Harry comprometeu-se com um novo contrato “significativo” de apoio ao processo de remoção de minas em Angola, previsto para os próximos três anos. Um gesto nobre, sim. Mas também um lembrete de que quase 50 anos após a independência, o país ainda limpa as feridas de um passado mal resolvido — com ajuda externa.

Diana: o impacto real de uma imagem

Em 1997, Diana caminhou num dos campos minados de Huambo e o mundo parou para olhar. A imagem de uma princesa entre engenhos mortais serviu como catalisador para a assinatura do Tratado de Proibição de Minas, que entrou em vigor poucos meses depois da sua morte trágica.

O que se seguiu, porém, foi um trabalho lento, burocrático e desigual. Milhares de minas continuam debaixo da terra. Desde o fim da guerra civil em 2002, mais de 88 mil angolanos foram vítimas de minas — muitos deles crianças. É uma realidade crua que discursos de gabinete e campanhas de imagem não conseguem esconder.

O grito silencioso de Ermelinda

Em 2019, a CNN falou com Ermelinda, mãe do pequeno Manuel, amputado por uma mina terrestre enquanto jogava futebol com o primo, que não sobreviveu. O testemunho dessa mãe angolana ecoa até hoje:

“A guerra acabou há muito tempo… mas a morte ficou.”

Este relato é mais poderoso do que qualquer contrato assinado. Porque ele mostra que, longe das cúpulas e protocolos, os campos continuam perigosos, e o chão que sustenta a esperança ainda está armado.

Herança ou encenação?

Não se pode negar que o gesto de Harry carrega simbolismo. Ele está, literalmente, a andar sobre os passos da mãe. Mas será que isso basta? Ou precisamos de ações estruturais, menos hollywoodianas e mais comprometidas com as vítimas reais desta guerra silenciosa?

No palco mediático, Angola volta ao centro — como cenário, não como protagonista. E isso, para um povo que ainda enterra os seus filhos por causa de artefactos deixados por potências e interesses estrangeiros, é uma ironia dolorosa.


📌 Dibatadié continua atento às sombras do poder, aos aplausos encomendados e às promessas com prazo. Queremos ver Angola livre de minas — mas também livre do teatro político que impede a verdadeira reconstrução.

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