Gilmário Vemba rejeitado à porta de Moçambique — artistas acusam censura


 

DIBATADIÉ | Maputo – 20 de Julho de 2025

Gilmário Vemba impedido de entrar em Moçambique — espetáculo cancelado e silêncio das autoridades reacende debate sobre liberdade artística

O humorista angolano Gilmário Vemba, um dos nomes mais populares da comédia lusófona, foi impedido de entrar em Moçambique neste domingo (20), junto dos colegas Murilo Couto (Brasil) e Hugo Sousa (Portugal). Os três integram o elenco do espetáculo internacional “Tons de Comédia”, que deveria acontecer na noite do mesmo dia em Maputo.

A equipa foi retida ainda no Aeroporto Internacional de Maputo, onde recebeu a informação de que não poderia entrar no território moçambicano. Segundo testemunhos recolhidos por vídeo e publicações nas redes sociais, não foi apresentada qualquer razão oficial por parte das autoridades fronteiriças.

Com a entrada negada, o espetáculo foi cancelado e os bilhetes vendidos ao público serão reembolsados. Nas redes sociais, Gilmário publicou um comunicado dirigido ao público:

“Meus irmãos moçambicanos, desculpa pelos transtornos… a partir de manhã os vossos valores serão reembolsados pelos mesmos canais de aquisição. Forte abraço e até quando poder 🙏🏾🙏🏾💡”

A reação nas redes: solidariedade e suspeitas de motivação política

A notícia espalhou-se com rapidez. Nas plataformas digitais, internautas moçambicanos, angolanos, brasileiros e portugueses demonstraram solidariedade para com os artistas. Mas entre as expressões de apoio, também surgiram suspeitas sobre as motivações da medida.

Uma das teorias que mais força ganhou é a de que o impedimento estaria relacionado ao apoio público de Gilmário Vemba ao político moçambicano Venâncio Mondlane, uma figura central da oposição e crítico assumido do partido FRELIMO. O humorista teria manifestado simpatia e palavras de encorajamento ao político durante os momentos de maior tensão política no país, principalmente durante os protestos de 2023 e 2024.

Para muitos, esse posicionamento — embora informal e simbólico — não terá sido bem recebido pelas autoridades moçambicanas, levando a uma possível retaliação indireta. Nas redes, internautas questionam:

“Desde quando apoiar um político da oposição impede um artista de trabalhar?”
“Cultura não é política. Isso é censura disfarçada.”
“Moçambique está a perder credibilidade ao barrar artistas por pensar diferente.”

A hashtag #GilmarioVemba está entre os tópicos mais comentados da noite, enquanto vídeos gravados pelos próprios humoristas no aeroporto circulam amplamente, revelando um clima de perplexidade e frustração, mas também de respeito e serenidade por parte dos artistas.

Governo mantém silêncio e alimenta dúvidas

Até ao momento da publicação desta matéria, nenhum representante oficial do governo moçambicano se pronunciou sobre o caso. Nem o Ministério da Cultura, nem a Migração ou os Serviços de Fronteira divulgaram qualquer nota pública, o que contribui para ampliar o clima de incerteza e desconfiança.

Especialistas em relações culturais alertam que casos como este podem deteriorar a imagem internacional do país, sobretudo num contexto onde Moçambique tenta afirmar-se como destino de turismo cultural e palco de eventos internacionais.

Liberdade artística em debate

O episódio reacende discussões sobre o espaço da liberdade artística e de expressão em Moçambique. Embora o país mantenha, no papel, uma Constituição que protege direitos fundamentais, organizações civis e culturais já denunciaram restrições informais e atos de censura indirecta, especialmente no ambiente artístico e mediático.

Recorde-se que este não é o primeiro caso de artistas estrangeiros a enfrentarem entraves burocráticos ou limitações políticas ao entrarem no país. Em 2019, durante um festival regional, vários grupos artísticos denunciaram interferência governamental por abordarem temas considerados sensíveis, como corrupção, violência policial ou direitos civis.

A situação de Gilmário Vemba é vista por muitos como parte dessa tendência. Para um dos organizadores locais do espetáculo, que preferiu não se identificar, “é muito preocupante que artistas sejam impedidos de trabalhar por opiniões pessoais. Isso não combina com o Moçambique que queremos construir.”

Tons de comédia, clima de tensão

O espetáculo “Tons de Comédia” já passou por várias capitais africanas e europeias, incluindo Luanda, Lisboa, Maputo, Praia e São Paulo, sem qualquer incidente. A actuação deste domingo marcaria o regresso de Gilmário Vemba ao palco moçambicano, onde tem uma base sólida de fãs e reconhecimento mediático.

A inesperada interdição do grupo, no entanto, transformou um momento cultural em caso diplomático informal, com impacto na percepção pública e na confiança de promotores internacionais que trabalham em Moçambique.

Enquanto o silêncio oficial persiste, a cultura, mais uma vez, parece ser apanhada no fogo cruzado da política.

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