Um Discurso de Engano Nacional — Raul Diniz

 



Depois de ouvir o discurso do Presidente do MPLA, também Presidente da República e chefe único do poder executivo, percebeu-se que as palavras proferidas estiveram totalmente fora de contexto, sem qualquer relação com a verdade dos factos.

Foi um discurso orquestrado, alinhado com os pronunciamentos já públicos da Polícia do regime e do impertinente Ministro do Interior, com o único objetivo de confundir a comunidade internacional e enganar parte da população angolana — especialmente os que padecem de amnésia ou continuam adormecidos no sono do tempo.

Os Factos Ignorados

O mais grave foi a ordem das prioridades: o Presidente dos “intocáveis” começou por lamentar os prejuízos dos empresários, cujas lojas foram depredadas e bens perecíveis saqueados. No entanto, ignorou por completo as vidas ceifadas pela brutalidade policial. As mortes foram relegadas para um plano secundário, como se fossem um detalhe insignificante.

O auxiliar do chefe do executivo, bem como João Lourenço, deram uma verdadeira aula magna de ausência de empatia — tanto à sociedade angolana em geral como, em particular, às famílias que perderam os seus entes queridos. Vidas insubstituíveis foram trocadas por mercadoria nos discursos frios e calculistas daqueles que, por juramento, deviam defender a vida dos cidadãos, conforme garante a Constituição.

Festas no Meio do Luto

Enquanto os assassinatos decorriam nas ruas, o Ministro de Estado e Diretor do Gabinete do Presidente da República, Edeltrudes Costa, promovia uma festa milionária, com requinte digno dos palácios reais do Reino Unido ou das monarquias árabes.

Segundo relatos, os manjares e champanhes foram importados do Brasil, França, Portugal e outras partes do mundo. A festa foi animada pelo cantor Paulo Flores — artista afecto ao regime — e sua banda, contratados a preços milionários. Tudo isso aconteceu sob o olhar atónito das famílias em luto.

O Discurso da Culpa Alheia

No seu discurso, o Presidente da República tentou atribuir responsabilidades a autores morais “invisíveis”, internos e externos, e até culpou as redes sociais pelos acontecimentos. O chefe do executivo evitou qualquer autocrítica e, mais grave ainda, o Ministro do Interior e o Comandante-Geral da Polícia chegaram ao cúmulo de responsabilizar as vítimas pelas próprias mortes.

Nas redes sociais, o ministro chegou a afirmar que o governo continuaria implacável contra os “vândalos” — sem esclarecer a que tipo de vândalos se referia:

  • Aos que usam fato e gravata para saquear o erário?
  • Ao próprio Presidente da República, cuja má gestão mergulhou o país na fome e na miséria endémica?
  • Ou ao povo pobre das periferias, onde a polícia levou apenas morte e destruição?

A Falência Moral do Regime

É necessário lembrar ao Ministro do Interior que, em democracia, a polícia deve comportar-se como uma autoridade republicana — jamais como uma arma de repressão ao serviço do regime.

Também é urgente alertar o jovem e arrogante ministro de João Lourenço que a sua postura fria e insensível não passou despercebida. Foi amplamente reprovada por angolanos de todas as matrizes políticas, académicas, étnicas, culturais e intelectuais. A sociedade angolana ancestral já não tolera tamanha falta de humanidade.

Enquanto isso, os “intelectuais de prato de arroz e peixe frito” continuarão a servir este regime, enquanto houver restos de poder. Assim que João Lourenço cair, procurarão outro senhor a quem servir.

Afinal, temos ou não gente sanguinária a governar o desgoverno e a trucidar pessoas indefesas!?

Estamos juntos.

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